Academia Amazônia Ensina https://academiaamazoniaensina.com.br/ Realizamos expedições de ensino, educação e pesquisa, conciliando experiências de visitação com eventos de formação acadêmica e profissional. Ciência contemporânea e vivências na Amazônia. Fri, 21 Nov 2025 22:27:51 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.1 https://academiaamazoniaensina.com.br/wp-content/uploads/2023/03/FAVICON-2-150x150.png Academia Amazônia Ensina https://academiaamazoniaensina.com.br/ 32 32 FILOSOFIA AMAZÔNICA: um pensamento milenar que questiona as bases da própria modernidade ocidental https://academiaamazoniaensina.com.br/2025/11/18/filosofia-amazonica-um-pensamento-milenar-que-questiona-as-bases-da-propria-modernidade-ocidental/ Tue, 18 Nov 2025 22:16:52 +0000 https://academiaamazoniaensina.com.br/?p=2301   No coração da maior floresta tropical do planeta, os povos originários desenvolveram ao longo de milênios formas sofisticadas de pensar que hoje se revelam fundamentais para repensar nossa relação com a vida, a natureza e o futuro.   O Que É a Filosofia Amazônica? A Filosofia Amazônica não é apenas um conjunto de ideias […]

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No coração da maior floresta tropical do planeta, os povos originários desenvolveram ao longo de milênios formas sofisticadas de pensar que hoje se revelam fundamentais para repensar nossa relação com a vida, a natureza e o futuro.

 

O Que É a Filosofia Amazônica?

A Filosofia Amazônica não é apenas um conjunto de ideias abstratas confinadas aos muros da academia. Ela é uma forma viva de pensar e existir, tecida nas relações entre os povos originários, a floresta, os rios, os animais e os espíritos. É uma filosofia que nasce da prática diária de viver em harmonia com a natureza e que desafia muitos dos pressupostos fundamentais do pensamento ocidental.
Segundo o professor Theo Fellows, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), estamos assistindo ao nascimento de uma filosofia amazônica no sentido acadêmico, impulsionada por dois movimentos cruciais: a crise do pensamento ocidental moderno – que cada vez mais questiona a separação entre humanidade e natureza – e a entrada de indígenas nas universidades, possibilitando que seus conhecimentos sejam sistematizados e colocados no debate filosófico mundial.
Mas essa filosofia já existe há milênios. O que está acontecendo agora é sua tradução e reconhecimento como pensamento filosófico legítimo, capaz de dialogar de igual para igual com as tradições ocidentais.

Onde Está a Filosofia Amazônica?

A filosofia amazônica não habita apenas os livros ou as universidades. Ela flui nas águas dos rios, que não são meros cursos d’água, mas caminhos, territórios sagrados, moradas de espíritos ancestrais. Para muitos povos amazônicos, os rios são entidades vivas que protegem, nutrem e ensinam. É nas margens desses rios que se aprende a ler os sinais da natureza: a cor da água que anuncia chuva, o comportamento dos peixes que indica a melhor época de pesca, o canto dos pássaros que revela a presença de predadores ou a proximidade de tempestades.
Essa filosofia está inscrita na própria floresta, onde cada árvore, cada planta, cada ser possui espírito e agência (no sentido filosófico). Como diz o xamã Davi Kopenawa Yanomami em sua obra fundamental “A Queda do Céu”: “A floresta está viva. Só vai morrer se os brancos insistirem em destruí-la.” E essa floresta viva ensina constantemente: as plantas medicinais que curam doenças que a ciência ocidental ainda não compreende totalmente, as árvores que indicam os ciclos das estações, os animais que revelam a saúde do ecossistema.
As plantas, aliás, são consideradas verdadeiras mestras de sabedoria. A ayahuasca e outras plantas sagradas não são vistas simplesmente como substâncias químicas que alteram o cérebro, mas como espíritos professores que ensinam, curam e revelam realidades normalmente ocultas. Como dizem os xamãs amazônicos: o que as plantas revelam não é um desvio da realidade, mas a realidade verdadeira, aquela que permanece escondida em estados ordinários de consciência. O conhecimento botânico dos povos amazônicos alcança uma profundidade impressionante – conhecem propriedades medicinais de milhares de espécies, suas combinações sinérgicas, dosagens precisas e contraindicações, num sistema de saberes tão complexo quanto qualquer farmacopeia moderna.
O corpo também é território onde a filosofia amazônica se manifesta. Como expressam as mulheres indígenas do movimento Wayrakunas: “A defesa do território é fundamental porque nosso corpo é o nosso território. À medida que violam o nosso território, estão violando também o nosso corpo, nosso espírito.” Na cosmologia amazônica, o corpo é o lugar da perspectiva – é através dele que se é humano, onça, peixe ou árvore. Por isso, a construção social do corpo através de pinturas corporais, adornos, dietas específicas e rituais de passagem é fundamental para definir identidade e lugar no cosmos. As pinturas não são decoração, mas escrita que comunica pertencimento, status, momento de vida.
Nas mãos das benzedeiras, parteiras e curandeiras, especialmente das mulheres da floresta, reside um conhecimento farmacológico e espiritual de profunda sofisticação. O benzimento, prática ancestral predominantemente feminina, combina o poder das palavras sagradas, das plantas e da fé para curar males físicos e espirituais. Essas mulheres dominam saberes sobre centenas de plantas medicinais – conhecem suas propriedades, combinações e dosagens, sabem quando colher cada espécie, como preparar cada remédio, com quais rezas acompanhar cada tratamento. É um sistema de conhecimento passado de geração em geração através da oralidade e da prática, preservando uma sabedoria milenar sobre as medicinas da floresta.
A filosofia amazônica também se revela no silêncio contemplativo, na capacidade de estar presente e atenta aos sinais sutis da floresta. Enquanto o mundo urbano valoriza o barulho e a pressa, os povos da floresta cultivam a arte da escuta e da observação paciente. É nesse silêncio ativo que se percebe o movimento das formigas anunciando mudanças climáticas, o cheiro da terra revelando sua fertilidade, o vento carregando mensagens de lugares distantes, o canto diferente do pássaro que indica perigo. Essa capacidade de contemplação profunda é em si mesma uma prática filosófica que permite compreender a complexidade da vida muito além do que captam os instrumentos científicos.
Nas práticas xamânicas encontra-se uma forma sofisticada de conhecimento que permite a comunicação entre diferentes mundos e perspectivas. Como explica o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, o xamã não é um místico irracional, mas alguém capaz de cruzar as barreiras entre perspectivas, de administrar as relações entre humanos e não-humanos. É, em essência, um tradutor entre realidades, praticando o que poderia ser chamado de uma diplomacia cósmica. Essa capacidade, vale ressaltar, não é dom místico inexplicável, mas resultado de anos de aprendizado rigoroso, dietas específicas, uso cuidadoso de plantas professoras e iniciação pelos espíritos – um processo de formação tão exigente quanto qualquer formação acadêmica ocidental.
E essa filosofia não está separada da vida cotidiana: ela se manifesta no cultivo da terra, na caça respeitosa, na pescaria sustentável, nos cantos, nas danças e nas cerimônias que marcam os ciclos da vida. 

 

Conceitos Fundamentais da Filosofia Amazônica

1. O Perspectivismo Ameríndio

Um dos conceitos mais revolucionários da filosofia amazônica é o perspectivismo ameríndio, sistematizado pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro a partir do pensamento dos povos indígenas.
Diferente da visão ocidental que vê a natureza como algo objetivo e universal, o perspectivismo propõe que todos os seres – humanos, animais, plantas, espíritos – se veem como humanos e veem os outros de acordo com sua própria perspectiva. Uma onça, por exemplo, vê o sangue como cerveja de milho; um urubu vê a carniça como peixe assado.
Isso não é relativismo cultural, mas multinaturalismo: há uma única cultura (todos os seres têm perspectiva, intencionalidade, vida social), mas múltiplas naturezas (cada ser habita um mundo diferente conforme seu corpo e ponto de vista).

2. O Bem Viver (Sumak Kawsay)

Embora o conceito tenha origem nos povos andinos (Quíchua: Sumak Kawsay), ele ressoa profundamente com a filosofia dos povos amazônicos. Bem Viver não significa acumular riquezas ou consumir mais, mas viver em equilíbrio, harmonia e reciprocidade com todos os seres.
Como explica a filosofia guarani do teko kavi (vida boa): “Você está bem quando está bem com a natureza, com os espíritos, com os anciãos, com as crianças e com tudo o que está ao seu redor.”
O Bem Viver contrasta com o “viver melhor” do capitalismo, que implica que alguns vivam melhor às custas de outros. Na filosofia amazônica, o bem só existe quando é coletivo e quando respeita os ciclos da natureza.

3. A Predação como Relação Fundamental

Enquanto a modernidade ocidental se organiza em torno da produção (fazer, criar, acumular objetos), muitos povos amazônicos organizam-se em torno da predação (a relação entre caçador e caça, a reciprocidade, o cuidado com os espíritos dos animais caçados).
Essa diferença não é superficial: ela revela formas completamente distintas de se relacionar com o mundo. Na lógica da predação, reconhece-se que somos todos parte de uma cadeia de relações onde ora somos caçadores, ora presas. Isso gera uma ética do cuidado e do respeito.

4. A Inversão Natureza/Cultura

Para o pensamento ocidental, todos os humanos compartilham a mesma natureza (corpo, biologia) e têm culturas diversas. Para a filosofia amazônica, é o oposto: todos os seres compartilham a mesma cultura (humanidade, perspectiva, intencionalidade) e têm naturezas (corpos) diversas.
Isso dissolve a separação rígida entre natureza e cultura que fundamenta o pensamento moderno, abrindo possibilidades radicalmente novas para pensar a ecologia, a ética e a política.

Filósofos e Filósofas da Amazônia

A filosofia amazônica ganha voz através de pensadores e pensadoras que transitam entre a aldeia e a universidade, entre o ritual e o livro, entre a oralidade ancestral e a escrita acadêmica. São intelectuais que não apenas falam sobre a Amazônia, mas falam desde a Amazônia, carregando em suas reflexões a vivência profunda com a floresta, os rios e as cosmologias de seus povos.

Davi Kopenawa Yanomami é talvez o nome mais emblemático dessa filosofia viva. Xamã, líder e escritor yanomami, Kopenawa é autor de “A Queda do Céu” (escrito em parceria com o antropólogo Bruce Albert), obra que se tornou referência mundial. Nela, apresenta uma crítica profunda ao que chama de “povo da mercadoria” – as pessoas não indígenas obcecadas pelo consumo – e oferece a cosmologia yanomami como alternativa civilizatória. Sua filha, Tuíra Yanomami, segue seus passos como liderança, denunciando especialmente as violências contra as mulheres provocadas pela invasão garimpeira.

Ailton Krenak, filósofo, ambientalista e escritor do povo Krenak, é outro nome fundamental. Com obras como “Ideias para Adiar o Fim do Mundo” (2019), “O Amanhã Não Está à Venda” (2020), “A Vida Não É Útil” (2020) e “Futuro Ancestral” (2022), Krenak se tornou uma das vozes mais importantes da filosofia brasileira contemporânea. Em 2023, fez história ao se tornar o primeiro indígena a ingressar na Academia Brasileira de Letras, reconhecimento de uma trajetória dedicada a questionar a separação entre humanidade e natureza que caracteriza o pensamento moderno.

João Paulo Barreto representa a nova geração de filósofos indígenas formados nas universidades sem perder suas raízes. Do povo Yepamahsã (Tukano), Barreto é doutor em Antropologia Social pela UFAM, professor de Filosofia e pesquisador do Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena. Suas pesquisas exploram a cosmologia e o sistema de pensamento de seu povo, traduzindo para a linguagem acadêmica saberes milenares sem descaracterizá-los.

Daniel Munduruku, do povo Munduruku, é escritor, educador e filósofo formado em Filosofia e Psicologia. Com mais de 60 livros publicados, especialmente para o público infantojuvenil, Munduruku dedica-se à valorização e transmissão de saberes indígenas. Como diretor-presidente do Instituto Uka – Casa dos Saberes Ancestrais, trabalha para que as novas gerações, indígenas e não-indígenas, tenham acesso a essas filosofias.

Entre as mulheres pensadoras, Ana Manoela Karipuna, do povo Karipuna do Amapá e mestranda em Sociologia e Antropologia pela UFPA, pesquisa os movimentos e direitos das mulheres indígenas. Márcia Mura, líder indígena do Coletivo Mura de Porto Velho e doutora em História Social pela USP, é uma das fundadoras do movimento Wayrakunas (que em Aymara significa “filhas da ventania”), juntamente com Bárbara Flores Borum-Kren e Aline Lopes Kayapó. Essas mulheres articulam reflexões filosóficas sobre opressão, corpo-território e bem viver, reivindicando que preferem ser identificadas como “indígenas mulheres” (e não “mulheres indígenas”) como forma de valorizar sua ancestralidade.

Geni Núñez, psicóloga, escritora e ativista guarani, traz contribuições importantes com obras como “Descolonizando Afetos”, questionando padrões coloniais nas formas de amar, se relacionar e viver. Kaká Werá Jecupé, em “A Terra dos Mil Povos”, apresenta ensinamentos ancestrais que conectam corpo, mente e ambiente. Eliane Potiguara, uma das primeiras mulheres indígenas a publicar no Brasil, aborda questões de gênero, identidade e resistência.

Marina Silva representa outra faceta importante da filosofia amazônica aplicada à política e à ação ambiental. Seringueira, professora, ministra do Meio Ambiente e ex-senadora, Marina carrega em sua trajetória a vivência da floresta e o conhecimento tradicional das comunidades extrativistas. Sua atuação política é profundamente marcada por uma visão de mundo que reconhece o valor intrínseco da natureza e a necessidade de harmonizar desenvolvimento com conservação ambiental, princípios que dialogam diretamente com a filosofia do Bem Viver.

Do lado acadêmico, Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo e professor do Museu Nacional/UFRJ, é o principal sistematizador do conceito de perspectivismo ameríndio. Sua obra “Metafísicas Canibais” (2015) é fundamental para compreender a filosofia amazônica não como curiosidade exótica, mas como interlocutor filosófico de igual status ao pensamento ocidental. Viveiros de Castro não apenas descreve o pensamento indígena, mas o coloca como ferramenta para repensar a própria filosofia.

Theo Fellows, professor do Departamento de Filosofia da UFAM e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Filosofia, dedica-se desde 2011 a encontrar bases filosóficas para o diálogo entre a filosofia ocidental e os conhecimentos dos povos indígenas. Victor Hugo Neves de Souza, também filósofo manauara formado pela UFAM, explora através de crônicas e poemas a profundidade filosófica da vivência amazônica.

Rita de Cássia Machado, filósofa feminista e doutora em Educação pela UFRGS, trabalha com educação de mulheres em comunidades indígenas no interior do Amazonas e coordena o projeto “As Pensadoras”, que valoriza o pensamento de mulheres filósofas. Neiza Teixeira, coordenadora editorial da Editora Valer, propõe em “Poetas, Filósofos e Xamãs: Um Encontro com a Palavra” (2025) um diálogo entre três figuras fundamentais para a compreensão do pensamento amazônico.

Na UFPA, nomes como João de Jesus Paes Loureiro, Violeta Loureiro e Jane Felipe Beltrão desenvolvem pesquisas sobre cultura amazônica, políticas públicas e violências contra indígenas e quilombolas. Marilene Corrêa, da UFAM, dedica-se aos estudos da cultura amazônica. Todos esses pensadores e pensadoras, cada um à sua maneira, contribuem para que a filosofia amazônica seja reconhecida não como folclore do passado, mas como pensamento vivo e relevante para os desafios contemporâneos.

Elementos Simbólicos da Filosofia Amazônica

Além dos elementos já explorados, a filosofia amazônica se estrutura sobre princípios fundamentais que organizam a existência e as relações entre todos os seres. Os quatro elementos – fogo, água, terra e ar – não são apenas categorias descritivas, mas forças vivas que permeiam toda a realidade e se manifestam nos rituais e na vida cotidiana. O fogo sagrado, aceso nos centros das aldeias e nos rituais de cura, conecta os participantes com a ancestralidade e com a transformação. A água dos rios, das chuvas e das cachoeiras é caminho, alimento e morada de seres poderosos. A terra – Pacha Mama para muitos povos – não é superfície a ser explorada, mas mãe generosa que alimenta, abriga e sustenta todos os filhos com seus frutos, suas medicinas, sua fertilidade. O ar carrega os espíritos, transporta os perfumes da floresta, leva as rezas e os cantos que conectam o visível ao invisível.
A reciprocidade estrutura toda a ética amazônica como princípio inegociável de equilíbrio. Cada ação gera obrigação de retribuição, cada recebimento exige gratidão e cuidado. Caçar não é simplesmente matar um animal, mas estabelecer uma relação que requer agradecimento aos espíritos, oferendas precisas, respeito aos tabus alimentares e às épocas de reprodução. Colher frutos exige o cuidado de não esgotar a árvore, de deixar sementes para regeneração, de agradecer pela generosidade. Pescar pede observância dos ciclos reprodutivos, do respeito aos peixes jovens, da gratidão pelas águas. Na vida social, receber um favor gera dívida moral de retribuição que fortalece os laços comunitários. Essa ética da reciprocidade, tecida em todas as dimensões da vida, garante equilíbrios ecológicos e sociais, impedindo acumulação excessiva, desperdício e ruptura das relações que sustentam a existência coletiva.
Esses elementos simbólicos não são ornamentos culturais ou crenças supersticiosas, mas princípios organizadores de uma forma de vida que manteve, por milênios, o equilíbrio entre necessidades humanas e capacidade de regeneração da floresta. São, em última análise, tecnologias sociais e ecológicas de altíssima sofisticação, testadas e refinadas através de incontáveis gerações, que hoje se revelam como sabedorias essenciais para um mundo em crise ambiental e civilizatória.

Por Que a Filosofia Amazônica Importa?

Em tempos de crise climática, de esgotamento dos recursos naturais, de adoecimento mental generalizado e de perda de sentido, a filosofia amazônica não é um exotismo acadêmico ou uma curiosidade antropológica. Ela é uma alternativa civilizatória.
Como diz Ailton Krenak: enquanto a modernidade nos ensinou que somos superiores à natureza e que nossa tarefa é dominá-la e explorá-la, os povos indígenas sempre souberam que somos natureza. Separar-nos dela é uma forma de autodestruição.
A filosofia amazônica nos convida a:

  • Repensar nossa relação com a natureza – Não como recurso a ser explorado, mas como comunidade de vida da qual fazemos parte.
  • Questionar o desenvolvimentismo – O “desenvolvimento” como crescimento econômico infinito está levando o planeta ao colapso. O Bem Viver oferece outra possibilidade.
  • Reconhecer outras formas de conhecimento – A ciência ocidental não é a única forma válida de conhecer o mundo. Os saberes indígenas são igualmente sofisticados e, em muitos aspectos, mais adequados para enfrentar nossos desafios.
  • Valorizar a diversidade – Cada povo, cada língua, cada cosmologia é uma forma única e irrecuperável de ser humano no mundo.

Filosofias Vivas para Tempos de Crise

A filosofia amazônica não é um capítulo encerrado no passado, nem uma abstração teórica confinada aos livros. Ela está viva nas aldeias, nos rios, nas universidades, nos movimentos sociais. Ela é praticada por xamãs, agricultoras, professores, ativistas, artistas. Em tempos de crise climática, de esgotamento dos recursos naturais, de adoecimento mental generalizado e de perda de sentido, essa filosofia milenar não é exotismo acadêmico ou curiosidade antropológica, mas uma alternativa civilizatória urgente e necessária.
Como nos ensina Ailton Krenak, enquanto a modernidade nos convenceu de que somos superiores à natureza e que nossa tarefa é dominá-la e explorá-la, os povos indígenas sempre souberam que somos natureza. Separar-nos dela é uma forma de autodestruição. A filosofia amazônica nos convida a repensar radicalmente nossa relação com a vida, a questionar o desenvolvimentismo que está levando o planeta ao colapso, a reconhecer outras formas de conhecimento tão sofisticadas quanto a ciência ocidental, e a valorizar a diversidade como riqueza insubstituível.
A filósofa Rita de Cássia Machado, que trabalha há mais de uma década com mulheres indígenas no interior do Amazonas, reflete sobre o que tem aprendido com essas comunidades: “O sentido da comunidade, a ideia de viver em comunidade que dá certo e que é importante na superação de muitas lógicas capitalistas e individualistas, inclusive do próprio conhecimento.” Essa sabedoria, diz ela, não pertence ao passado, mas aponta para futuros possíveis onde o bem viver substitua o viver melhor às custas de outros.
Neste momento em que a humanidade se vê diante de escolhas civilizatórias fundamentais, as vozes da floresta ecoam com uma mensagem clara: há outros modos de existir, outras formas de se relacionar com a vida, outras possibilidades de futuro. A floresta pensa, os rios pensam, os animais pensam. E as sociedades que se distanciaram dessas sabedorias têm muito a aprender com essas pensadoras e pensadores da floresta que, durante milênios, cultivaram a arte de viver em reciprocidade, respeito e harmonia com todos os seres que habitam conosco este planeta.


Referências sugeridas para aprofundamento:
KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A Queda do Céu: Palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
KRENAK, Ailton. Ideias para Adiar o Fim do Mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Metafísicas Canibais. São Paulo: Ubu/N-1 Edições, 2018.
MUNDURUKU, Daniel. O Banquete dos Deuses: Conversa sobre a origem da cultura brasileira. São Paulo: Global, 2009.
TEIXEIRA, Neiza. Poetas, Filósofos e Xamãs: Um Encontro com a Palavra. Manaus: Editora Valer, 2025.

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O QUE QUEIMAMOS NO FOGO DA AMAZÔNIA? https://academiaamazoniaensina.com.br/2023/11/15/o-que-queimamos-no-fogo-da-amazonia/ Wed, 15 Nov 2023 21:04:58 +0000 https://academiaamazoniaensina.com.br/?p=817 Diversidade natural amazônica Ao contrário do que muitos pensam, Amazônia não é sinônimo de Floresta Amazônica e não está restrita ao estado do Amazonas (ou mesmo à Amazônia brasileira, que se estende pelos territórios do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Roraima, Rondônia, Mato Grosso, Maranhão e Tocantins). Seus mais de 5 milhões de quilômetros quadrados atravessam […]

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Rio Negro e ilha amazônica embaçados pela fumaça esbranquiçada das queimadas.

Diversidade natural amazônica

Ao contrário do que muitos pensam, Amazônia não é sinônimo de Floresta Amazônica e não está restrita ao estado do Amazonas (ou mesmo à Amazônia brasileira, que se estende pelos territórios do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Roraima, Rondônia, Mato Grosso, Maranhão e Tocantins). Seus mais de 5 milhões de quilômetros quadrados atravessam 8 países latino-americanos além do Brasil.

Mas a maior parte, de fato, se encontra no nosso país, que comporta quase 60% de uma região que possui 15% da biodiversidade do planeta e é habitat de cerca de 1.300 espécies de aves, 430 espécies de mamíferos e 3 mil espécies de peixes, além de mais de 15 mil plantas conhecidas.

Tanta riqueza é essencial não só para o Brasil, enquanto recurso estratégico para uma série de setores, mas também para toda a humanidade. Um exemplo claro dos serviços ecológicos prestados pelo bioma é a capacidade de absorção de carbono da floresta primária, que contribui para a pureza do ar e diminuição das temperaturas. 

Além disso, é a sua participação no ciclo da água que leva chuva a diferentes regiões do continente americano. Por meio dos rios voadores, fluxos de massas de ar carregadas de vapor d’água irrigam regiões centrais para o agronegócio mundial.

Mas toda essa riqueza está ameaçada.

Consequências econômicas do desmatamento

Cerca de 20% da formação original da Amazônia já foi devastada. Estima-se que, se esse número chegar a 40%, atingiremos um ponto de não retorno com consequências catastróficas para o planeta. Segundo dados da plataforma TerraBrasilis, que registra desmatamentos e focos de incêndio desde 1988, o desmatamento acumulado da Amazônia Legal já superou os 115.000 km². Somado a isso estão o aumento das queimadas, que anualmente registram mais focos nos meses de agosto e setembro.

E aqui é importante lembrar que não é “só” vegetação que sucumbe às queimadas. Mas, afinal, o que queimamos no fogo da Amazônia?

Com parte da floresta, também perdemos oportunidades.

No campo diplomático, a preocupação das autoridades internacionais sobre a governança ambiental brasileira implica em maiores dificuldades na condução das relações exteriores do Brasil. Assim, o país corre o risco de ficar para trás na economia e nos negócios globais.

E por “negócios” entende-se não só, mas sobretudo, o agronegócio, o principal setor da economia brasileira, que sofreu baques significativos com a polêmica na Amazônia. Como bem descreveu o Grupo de Trabalho pelo Desmatamento Zero, “desmatar não ajuda a competitividade da agropecuária; ao contrário, coloca-a em risco”. A confirmação disso se deu pelas diversas iniciativas de boicotes aos produtos brasileiros tomadas ao redor do mundo, como a suspensão da compra de couro brasileiro que a H&M colocou em prática em 2019. 

Mesmo que muitos desses boicotes frquentemente não tenham justificativas plausíveis quando melhor avaliados, uma reputação ruim impede que o Brasil questione tais decisões, perdendo mercado para outros países exportadores de commodities.

E o impacto da destruição ambiental sobre os negócios vai muito além do setor agropecuário. 

Potencial bioeconômico da Amazônia

Florestas vivas são fonte infinita de inovação para as cadeias produtivas da agricultura. Afinal, o trigo, a soja, o milho e o tomate saíram do magnífico laboratório de inovações da biodiversidade. Sem desmerecer os esforços de aprimoramento da engenharia, o primeiro e principal inventor é a natureza. Consequentemente, uma das primeiras coisas que queimamos com a Amazônia é conhecimento.

Infelizmente, a falta de aproveitamento do potencial inovador da região é uma constante – e, sem investimento em pesquisa, fica difícil agregar valor mercadológico aos produtos originários dessa biodiversidade única.

Mas, entre os exemplos de produtos florestais amazônicos que já geram muita receita para o Brasil, podemos citar o açaí e o guaraná, que são exportados para o mundo todo e muitas vezes compõem a principal fonte de renda das comunidades da região. Da mesma forma, a farinha de tapioca ganhou fama no exterior com o “bubble tea”, criado em Taiwan.

A lista de alimentos típicos da região é exaustiva e vai desde o camu-camu, fruta com concentração de vitamina C 30 vezes maior que a da laranja, até o tucumã, fruta fibrosa consumida principalmente no x-caboquinho, famoso sanduíche regional.

Além dos sabores e nutrientes dos alimentos amazônicos, outros produtos da floresta são valiosos por seu multiuso. É o caso dos óleos de copaíba e andiroba, que podem ser utilizados como anti-inflamatório, cicatrizante, antisséptico, repelente e matéria-prima para cosméticos.

Imaginem todas as espécies de plantas, ervas e óleos cujas propriedades medicinais e tecnológicas ainda não conhecemos, e o potencial desperdiçado se tais propriedades forem destruídas antes que o façamos.

E não é só isso. Também se desperdiça muita madeira no meio das cinzas, deixando um mercado milionário mal aproveitado – afinal, a exploração de madeira para produção de móveis e papel pode, e deve, ser feita de forma sustentável.

Mas a Amazônia não se compõe apenas de fauna e flora: ela é feita de gente.

Consequências sociais das queimadas

Mais de 25 milhões de amazônidas sofrem com o impacto que a destruição da biodiversidade traz para as suas vidas. É nítido como as temperaturas estão cada vez mais altas durante o verão, e como o aumento na intensidade das chuvas de inverno causa cheias que quebram recordes.

Infelizmente, os impactos não acabam por aí. Como consequência das queimadas, em 2015 o ar poluído em Manaus esteve acima do limite aceitável pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Durante o mês de outubro, uma fumaça tóxica cobriu a cidade, prejudicando o funcionamento do aeroporto, atrapalhando atividades escolares e afetando a saúde da população.

Em 2019, um aumento no número de focos de incêndio levou a cerca de 2.195 hospitalizações, segundo o DataSUS. Tal situação ganhou visibilidade quando o problema chegou a São Paulo, sufocada por uma nuvem negra no ano em que os rios voadores deixaram de levar apenas chuva para o sudeste, e passaram a levar fumaça. Foi então que pudemos perceber que, em um ecossistema, a alteração de uma parte afeta o todo.

Agora, em 2023, o cenário se repete de forma ainda mais alarmante: no dia 11 de outubro, a cidade de Manaus atingiu o segundo pior nível de qualidade do ar do mundo. Além disso, os cidadãos da região amazônica têm o desafio extra de lidar com sensações térmicas que chegam a 49°C. Estipula-se até que o aumento da temperatura da água tenha causado a morte de mais de 100 botos na região de Tefé, afetada também pela seca histórica que assola o Amazonas.

Os efeitos catastróficos da crise climática já se fazem sentir – e os menos responsáveis são os que mais sofrem.

As consequências sociais das queimadas nos levam a refletir sobre a responsabilidade coletiva diante das mudanças climáticas. Como sociedade, estamos preparados para lidar com o sofrimento que a degradação ambiental impõe a todos os seres do planeta? E, ao olharmos para o futuro, que conhecimentos valiosos estamos perdendo ao permitir a destruição de um laboratório natural único?

Texto: Helena Andrade.

Revisão: João Tezza Neto.

Imagem de capa: Tadeu Rocha.

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